Empoderar jovens afrodescendentes é o caminho para crescermos | Exame

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Empoderar jovens afrodescendentes é o caminho para crescermos
Empoderar jovens afrodescendentes é o caminho para crescermos

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Diversidade racial: empresas ainda não refletem a sociedade brasileira. (99Jobs/Divulgação)

Quando me deparei com as imagens televisivas de George Floyd sendo assassinado à luz do dia e chamando por sua mãe, como homem negro fui tomado por um sentimento muito perturbador. Sim, poderia ser eu ou meu filho. Mesmo sendo um executivo bem-sucedido, já fui abordado por policiais diversas vezes de maneira injusta, inclusive por desacreditarem de eu ser o proprietário do meu próprio veículo, um modelo topo de linha.

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No entanto, naquela semana acompanhei a adesão global ao #BlackLivesMatter (em português, vidas negras importam) – quando as pessoas tomaram as ruas se opondo ao racismo – ocasionando um movimento importante que levou marcas globais a se posicionarem em uma época em que, finalmente, o mercado começou a perceber que, para ter economias fortes, uma das saídas é reduzir a desigualdade.

A condenação do policial Dereck Chauvin pelo assassinato de Floyd denota uma luz ao desafio complexo de enfrentarmos o racismo estrutural e não podemos perder a oportunidade de reforçar a pauta junto às altas gestões do ambiente corporativo. Quatro meses após a morte, o Citigroup publicou um relatório pioneiro que estimava que a desigualdade entre negros e brancos custou US$ 16 trilhões à economia norte-americana nos últimos 20 anos.

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O levantamento mostra ainda que equiparar os salários entre afrodescendentes e eurodescentedentes poderia injetar US$ 2,7 trilhões na economia local, provando que reduzir essa lacuna traria desenvolvimento econômico. Eu, que cheguei aos Estados Unidos como um estudante imigrante que teve acesso ao mundo dos investidores atuando no Credit Suisse, jamais imaginei isso quando criança e entendo bem a importância dessa conscientização para empoderar jovens negros e diversificar o ambiente corporativo ao redor do mundo.

Em um país marcado pela desigualdade racial como o Brasil, a situação não é diferente e merece ainda mais atenção, pelo papel que a escravidão teve aqui e quantidade de afro-brasileiros. Segundo o Instituto Locomotiva, os afro-brasileiros movimentam R$ 1,7 trilhão ao ano, sendo os 14 milhões de empreendedores também responsáveis por gerar R$ 359 bilhões em renda própria. São cifras importantes para um país em desenvolvimento que luta para voltar a crescer economicamente.

Para reduzir a desigualdade por aqui, onde de acordo com o IBGE dos 13,5 milhões de pessoas vivendo em extrema pobreza, 75% são negros ou pardos, a única saída é o investimento na formação profissional, e o incentivo ao empreendedorismo. Quando ocorreu o caso Floyd, eu já estava no Brasil à frente de uma empresa de tecnologia que contribui para sustento de 3.200 famílias.

Consciente sobre a situação, a empresa na qual sou CEO se tornou mantenedora da aceleradora de impacto social Vale do Dendê e também lançou uma academia de treinamento de jovens. Queremos reunir recursos para possibilitar maior formação e capital destinado a jovens afrodescendentes e aos negócios que trabalham o tema da diversidade.

No Brasil, o setor de tecnologia precisará de 400 mil profissionais até 2024 – e o país só forma 46 mil por ano. Agora, imaginemos se as lideranças e os departamentos de TI das grandes empresas investirem em inclusão e diversidade, apostando na formação de jovens afrodescendentes e outros grupos subrepresentados, contribuiríamos para resolver três problemas: preenchimento da lacuna de mão de obra, redução da desigualdade racial e a melhoria da representatividade no setor corporativo.

Entendo como missão, a multiplicação desse conceito no setor empresarial. Em todas as áreas, a obtenção de resultados econômicos seria certa.

Nana Baffour é ganês, empreendedor global em diferentes setores como tecnologia e moda, além de CEO da Qintess.

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